Ninguém pense que cultivar mirtilos é dinheiro sem trabalhar”

20-06-2014

Nasceu em 2006 para  dinamizar o centro urbano de Sever do Vouga mas rapidamente extrapolou o seu raio de ação quer geográfico quer de missão. A vertente mais visível da Agim é agora a dos pequenos frutos, daí que no ano passado até tenha alterado a sua designação, tornando-se Associação para os Pequenos Frutos e Inovação Empresarial.

Assume então a vontade e desígnio de dar corpo e visibilidade à organização da fileira dos pequenos frutos em Portugal, para o que viu aprovada a sua candidatura ao programa COMPETE precisamente para dinamização do “Cluster dos Pequenos Frutos”, na qual se aliou a outros parceiros.

Também na mesma linha de raciocínio, em setembro do ano passado inaugurou um Campo Experimental de Pequenos Frutos, que entende ser fundamental para a produção de conhecimento nesta área, com particular destaque para o mirtilo. Para o futuro, entre outros projetos, já tem em agenda o lançamento de uma Bolsa de Preços, que sirva de orientação à fileira. Às portas de mais uma edição da Feira do Mirtilo (26 a 29 de junho), que catapultou Sever do Vouga para a fama, assumindo-se como Capital deste pequeno fruto, entrevistámos António Coutinho, presidente da Câmara e simultaneamente da Agim.

 

Sabemos que este ano a Feira vai apresentar diversas novidades, ficam a dever-se ao facto da temática do mirtilo estar a ganhar ainda mais pujança na região e até a nível nacional?

Todos os anos se procura introduzir alguma novidade e o facto de termos tido a aprovação de uma candidatura que nos assume como Cluster dos Pequenos Frutos dá ainda mais ênfase a esta questão da produção dos pequenos frutos. Mas, quando promovemos uma atividade, devemos sempre tentar fazer com que a cada edição ela seja melhor. Acreditamos que ainda há margem para progressão do mirtilo e paralelamente também da Feira.

 

Quando se refere a margem de progressão...

Refiro-me ao nível comercial.

 

A área comercial é sempre uma questão que vem ao de cima. Acha que os produtores estão bem informados, ou devidamente apoiados para que quando se chegar ao boom da produção não haja problemas?

A Agim tem feito esse trabalho de esclarecimento no sentido de mostrar que não é o el dorado”, mas sim uma opção que,  quanto a mim, partirá muito da utilização daquilo que era a agricultura tradicional. Ou seja, a  utilização destas “novas culturas” como uma forma de salvaguardar o que era a agricultura tradicional, transformando-a, motivando os agricultores, ou os possíveis novos agricultores porque há uma hipótese de mercado.

 

Quando se refere a crescer, refere-se também a alargar a área geográfica?

Não é por aí, se bem que há variedades (de mirtilo) que podem adaptar-se a várias zonas do território nacional. Podemos crescer mais na aposta comercial, aproveitar as oportunidades que temos, isto é, produzir fora do tempo dos outros (ex. em maio quando o resto da Europa não consegue).

Nós Agim, em conjunto com muitos parceiros, estamos a fazer uma aposta forte no sentido de aferir o que é que aqui pode ser mais valorizado (variedades).

 

Sob o ponto de vista dos produtores, não basta simplesmente avançarem para esta cultura?

É preciso olharem para outros aspetos bem mais complexos, como a questão da comercialização.

 

A Agim está em condições de informar devidamente os produtores?

Eu penso que a Agim fez o certo, apostando no científico, em estudar este produto como uma mais-valia. E pode sê-lo efetivamente se trabalharmos a questão da produção mas também do mercado, garantindo as vendas na altura certa para cada destino.

Sever do Vouga neste momento exporta mais de 90% da sua produção, pelo que a margem que é deixada para o mercado nacional é muito pequena. Curiosamente os canais que vendem estes produtos cá dentro absorvem-no de outros mercados.

 

Ainda não foi feita aposta nas vantagens do mirtilo na utilização diária do consumidor.

 

Ainda falta sensibilização para o consumo?

Falta. Mas neste momento a grande preocupação é escoar o produto.

 

Mas ao nível do pequeno produtor. Ele não terá mais vantagem em vender no comércio de proximidade, por exemplo?

Acho que isso não é solução. Assim é  trabalhar num mercado desorganizado.

 

Mas de qualquer forma, o pequeno produtor também terá dificuldade em colocar o seu produto no mercado...

Não é assim se ele estiver associado numa das várias organizações que existem no país.  Tem é de cumprir as regras com que a OP trabalha. É preciso fazer um trabalho de sensibilização no sentido de fazer entender às pessoas que se estiverem unidas numa organização que trabalha do início até ao fim da cadeia, com um espírito de aposta na produção, é o mais lucrativo para todos.

 

A organização é muito importante e é de sublinhar o importante papel da Agim, não só a nível científico mas também de investimento e comercialização, de ir aos mercados, de fazer rentabilizar o produto.

 

E produzindo para o mercado nacional, é possível vender mais caro?

Esse também é um caminho. Há um grande trabalho a fazer no mercado nacional, e as organizações não podem pensar que pelo facto de termos garantido o escoamento para o mercado internacional num certo período, não é preciso fazer mais nada. O que valorizarmos no mercado interno produz mais-valia também no mercado externo.

 

Mas o mercado nacional está a ser mais difícil de trabalhar ...

Está porque ainda não foi muito bem explorado.

 

Então qual é a linha de orientação da Agim para este segmento?

Como em qualquer mercado, tem de haver uma aposta na qualidade. Aquilo que se perspetiva nos próximos anos é que vamos produzir muito mais e nessa altura é preciso estar tudo trabalhado para o mirtilo português também ter espaço no mercado interno. Mas nós temos a mais-valia de podermos dizer que produzimos antes (dos outros) e melhor. Se no mercado externo conseguimos ter escoamento porque conseguimos ter qualidade, temos um bom negócio, mas temos de o solidificar e fazer com que no mercado interno comece a haver maior apetência para o consumo.

 

Podemos dizer que se o mercado interno assim o permitir, primeiro está ele e só depois a exportação, ou é ao contrário?

Acho que nesta altura ainda não estaremos preparados para invadir o mercado interno, até porque ainda não há essa cultura de integração na gastronomia, mas vamos lá chegar, até porque existe esta moda de consumo dos produtos “saudáveis”.

 

Acredita então nesse espaço no consumo interno?

Acredito e a nossa Feira tem tido um enorme papel nessa divulgação.

 

Embora exista esta associação de ideias de Sever do Vouga, “Capital do Mirtilo”, não tem a pretensão de que seja uma cultura aqui confinada?

De forma alguma. Nós valorizamos um produto com a sua dimensão e não perdemos nada por haver mirtilos noutros sítios.

 

De há uns anos a esta parte, qual tem sido a evolução da cultura. A economia tem vindo a melhorar por via desta cultura?

Continuamos a ser “Capital” não só porque foi aqui que o país nasceu para a cultura, mas também porque somos os maiores produtores.

 

E o impacto económico?

É um impacto importantíssimo. Temos uma Bolsa de Terras que tem tido um enorme sucesso. Estamos a avançar para uma segunda fase agora de terrenos desativados de produtores privados e também dos baldios.

Terrenos que vão servir para a produção de mirtilos mas também outras produções, como o medronho (... ).

Consideramos que estes passos significam uma revolução da agricultura de Sever do Vouga que até aos anos 80 esteve muito ligada à produção leiteira, e sempre foi uma atividade importante para o município.

 

Organização tem sido uma palavra sempre associada à produção, como um caminho, mas nem sempre tem sido assim ...

Não vamos dizer que é fácil mas nós Agim, uma pequena organização, conseguimos ser a única associação de produtores de pequenos frutos europeia reconhecida no mercado internacional.

 

Quais são então as grandes dificuldades para se conseguir a boa organização?

Há uma premissa que é horizontal em termos de produção: quem produz bem tem mercado. Toda a produção exige esforço e produzindo bem nós temos mercado.

 

Começando então pela produção, sabendo-se que muitos projetos estão a ser implementados por pessoas de fora da agricultura, apoiadas por consultores, quando chegar a altura dessa exigência/ dedicação, não haverá perigo do produtor não estar apto e aquela entidade que o ajudou a fazer o projeto o deixar “desamparado”?

Isso pode acontecer, por isso é que há essa aposta na qualidade, na base científica (temos um Campo Experimental) e mesmo assim as coisas nem sempre correm bem. É preciso um acompanhamento permanente, com as eventuais necessárias adaptações. Recomendo a todos os produtores que não pensem que as coisas surgem sem trabalho.