Revelação de uma espécie de cogumelos silvestres de Primavera causadora de intoxicações graves

05-03-2013
 
Um texto de José Luís Gravito Henriques

Engenheiro Agrónomo - Direção Regional de Agricultura e Pescas do Centro

 

Durante a Primavera, raramente são referidos casos de intoxicação por ingestão de cogumelos silvestres. A diversidade de espécies e a produção são de uma forma geral menores que no Outono, o que alivia em grande parte os riscos e os acidentes desta natureza.

Há no entanto muitas povoações, em que o consumo de cogumelos se baseia numa espécie comestível de desenvolvimento Primaveril: a Amanita ponderosa, vulgarmente conhecida, entre muitas outras designações, por tortulho ou silarca.

Já há algum tempo, tinham sido recolhidos relatos de intoxicação de duas famílias, por ingestão de cogumelos de Primavera, ocorridos na década de oitenta. Atendendo ao tempo passado, não se aprofundou o assunto, apontando-se a responsabilidade das intoxicações para a Amanita verna, espécie mortal que aparece esporadicamente neste período, nos habitats da Amanita ponderosa.

Porém, em 2013 deram-nos conta da ocorrência de mais dois casos de intoxicação. A proximidade dos acontecimentos permitiu então, com os colectores e consumidores, desenvolver um trabalho exploratório sobre as características dos cogumelos ingeridos.

As descrições feitas pelos intervenientes, algumas pormenorizadas e ainda bem presentes na memória, tendo por base de comparação a morfologia da Amanita ponderosa, espécie que supostamente estaria a ser apanhada, conduziram à identificação da espécie responsável pelas intoxicações: a Amanita boudieri.

Concluiu-se que os problemas derivaram do consumo, de uma mistura ou não de espécies de cogumelos, tendo os apanhadores confundido a Amanita ponderosa com esta espécie de cor branca, de identificação pouco facilitada, nalgumas circunstâncias.

Verificou-se também que, em todos os casos houve algumas desconfianças nos tortulhos mas, mesmo assim prosseguiram com a sua confecção. A maioria dos intervenientes, para confirmação da pressuposta comestibilidade, fez uso de um processo altamente falível, mas ainda muito arreigado na tradição popular, que se traduz na observação do não escurecimento do alho quando cozinhado em conjunto com os cogumelos. Em concreto, a manutenção da cor do alho, conduziu ao seu consumo, sem receios.

Os primeiros sintomas de intoxicação, idênticos e mais ou menos persistentes, manifestaram-se após um período de latência não inferior a 8 horas, na forma de náuseas, vómitos e diarreia.

A avaliação analítica revelou que as intoxicações reflectiram-se negativamente, com alguma gravidade, na função hepática e renal, mas apesar dos quadros clínicos distintos e com gradiente variável de gravidade, com os tratamentos instituídos, em todos os casos, foi possível minimizar os efeitos e reverter a quadro sintomático inicial.

 

Para evitar intoxicações, recomendam-se cuidados a ter na apanha e consumo da Amanita ponderosa:

- Não cortar o cogumelo pelo pé

A extracção deve ser total para não remover a volva, membrana saciforme que envolve a base do pé. A Amanita ponderosa apresenta, completamente enterrada, uma volva permanente, separável do pé, com terra aderente na parte exterior.

Já na Amanita boudieri, a volva consubstancia-se, apenas pela presença de uns conjuntos de verrugas dispostas em anel, na parte superior do bolbo, bolbo esse que apresenta uma forma característica de cabeça de nabo sempre coberta de terra.

- Evitar a apanha em ovo

Em ovo, as diferenças entre as espécies são menores e menos perceptíveis. No entanto, na fase inicial, enquanto o Amanita boudieri apresenta uma silhueta em cunha, o tortulho toma um perfil mais esférico ou oval.

Também quanto mais tarde se processar a apanha da Amanita ponderosa, mais visíveis serão as suas alterações de cor, por todo o carpóforo.

- Não apanhar cogumelos brancos com verrugas no chapéu

O tortulho tem o chapéu liso, a descoberto ou com placas persistentes de configuração plana. A cor da cutícula, assim como os restos do véu, são de cor branca, mas, no final, evoluem para castanho.

No que respeita à Amanita boudieri, esta tem o chapéu e verrugas poligonais, de cor branca.

- Apanhar e consumir apenas tortulhos que escureçam

A Amanita ponderosa ao ser cortada e exposta ao ar, adquire tons rosados e depois acastanhados. Também ela, quando cozinhada, escurece.

A Amanita boudieri mantém-se no aspecto e com a carne sempre branca.

- Não colocar no mesmo cesto, espécies aparentemente iguais. Muito menos fazer utilização de sacos de plástico

Os tortulhos estão enterrados em grande parte do seu desenvolvimento, pelo que são apanhados com muita terra agarrada.

Ao juntarem-se num saco de plástico, a terra distribui-se por todos os cogumelos, mascarrando de cor castanha os mais claros e venenosos, tornando-se difícil a identificação das espécies tóxicas dissimuladas, sobretudo quando forem apanhadas sem a base do pé.

- Não usar o alho para confirmação da comestibilidade

Em ambas as espécies não se verifica o escurecimento do alho quando cozinhadas em conjunto, mas o método, sem qualquer validade, persiste e induz a consumos responsáveis por muitas intoxicações mortais.

- Evitar consumos exagerados e repetidos

Os cogumelos são alimentos de difícil digestão para os quais se recomenda sempre um consumo moderado. Além disso, tratando-se de uma intoxicação de longa duração, a ingestão sucessiva de cogumelos tóxicos, agravará de forma cumulativa os problemas de saúde e pode levar a mais consumos, antes que sejam sentidos os primeiros sintomas.

 

Atenção

A Amanita boudieri apesar de ser dada como comestível, possui toxinas que atacam com gravidade o organismo humano, em particular o fígado e os rins, não devendo por isso ser consumida.

Em caso de ingestão, quanto menos tempo distar entre o início dos sintomas e a intervenção médica, mais eficaz será o tratamento.

 

Pode ver em PDF aqui

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Para melhor esclarecimento, deverá ser consultado o documento de divulgação “ESTUDO SOBRE CASOS DE INTOXICAÇÃO POR INGESTÃO DE COGUMELOS SILVESTRES DE PRIMAVERA - EQUIVOCOS ENTRE Amanita ponderosa e Amanita boudieri” disponível no portal da DRAPC: https://www.drapc.min-agricultura.pt/base/geral/files/intoxicacao_boudieri.pdf , onde são enunciados alguns cuidados a ter na apanha,conservação e consumo da Amanita ponderosa, assim como apresentadas e comentadas com inclusão de fotografias, as características distintas das duas espécies passíveis de alguma confusão. 

* excrito ao abrigo do anterior acordo ortográfico